Quando soube que tinha um cancro não queria acreditar. Parecia-me mentira. E durante 1 ano senti que estava a ver a minha vida de fora, que não era eu que a estava a viver. Parecia um pesadelo e eu queria acordar. Mas quando me levantava de manhã, confrontava-me com a mesma realidade.

E agora? Pensei. O que é que se vai passar comigo? Como vai ser a minha vida? Como vou contar aos meus amigos? Vou ter que fazer aqueles tratamentos em que nos cai o cabelo? Vou morrer? Não. Isso não pensei... pelo menos na fase do diagnóstico e na fase dos tratamentos.

Não sei dizer o que senti ao certo. Senti medo, injustiça, tristeza, vontade de chorar, ansiedade... mas senti apoio, coragem, força e vida. Senti-me feliz por estar viva e por ter esta oportunidade de lutar. Senti-me privilegiada por poder fazer a minha vida normal e pensei que não era infeliz. Infelizes eram aqueles que aos 20 anos se vêem para sempre presos a uma cadeira de rodas, por exemplo.

Depois, a fase dos tratamentos foi também muito difícil. Isto porque, para além da parte emocional com que temos que lidar, vem a parte física. E aqui sentimo-nos mais impotentes. Pelo menos eu senti-me. Isto porque não deixei de dormir a pensar que tinha um cancro. Mas passei noites em claro porque não conseguia estar 5m longe da casa-de-banho a vomitar.

Primeiro foi a quimioterapia. Para mim, a parte mais difícil foram os enjoos e as náuseas. Só de estar a escrever ainda me lembro dessas sensações, aqui no meu quarto... E durante uns bons meses não conseguia dormir nele porque o cheiro do meu próprio quarto me enjoava.

A queda do cabelo foi um mal menor, mas reconheço que é muito difícil sair à rua de lenço na cabeça. Parece que é a nossa marca de identidade e levamos um cartaz colado que diz: SIM, TENHO UM CANCRO! E depois passamos e sentimos que as pessoas olham e comentam "coitadinha", "será que vai morrer?"

A radioterapia foi o mais fácil A radioterapia para mim foi o tratamento mais fácil. Foi chato, mas, de todos, o que menos marcas me deixou. Ainda assim, deixou-me alguns pontos (espécies de tatuagens) que são isso mesmo, tatuagens. Isto é, marcas para o resto da vida...

A hormonoterapia ainda está a decorrer... é o mais fácil de fazer, mas é o que mais me perturbou em termos emocionais porque tens efeitos secundários, tais como os afrontamentos e vão-me provocar uma menopausa precoce.

Para uma jovem de 23 anos, receber este diagnóstico, depois de todo o processo da doença é muito difícil. E reconheço que ainda é. Ainda está tudo muito recente, muito no início. E também sei que ainda não estou livre de perigo. Mas quem o está? E é assim que eu penso e sigo com a minha vida. Feliz por ter esta 2ª oportunidade, que fiz por merecê-la e que valorizo muito... E às vezes penso "que injustiça ter tido um cancro tão nova" e foi de facto. Mas também penso que, se não fosse esta experiência, eu talvez não vivesse a vida desta maneira. Não lhe desse tanto valor. E não me sentisse tão feliz por vivê-la.

''Janete, 21 anos ''Profissão: Jornalista