Aos 28 anos uma comum sensação de injustiça, revolta e pânico. Porque

não é suposto ser agora. Apesar da pesada herança genética (avó, tia,

mãe e a confirmada mutação BRCA1 e 2) e apesar da quase certeza de que

chegaria a minha vez, foi evidentemente com indignação que recebi a

confirmação à segunda biopsia e segunda ressonância magnética:

carcinoma ductal invasivo na mama direita.

 

Foi junto do meu companheiro, família e amigos que encontrei a energia

e o carinho indispensáveis para reagir a tudo o que se ia sucedendo.

Mas foi também junto dos profissionais do I.P.O. que encontrei a

confiança e o apoio para que tudo se resolvesse da melhor e mais

rápida maneira possível.

 

Em conjunto com a equipa médica acordámos em fazer mastectomia radical

modificada à direita e mastectomia subcutânea com reconstrução

imediata à esquerda. E ainda bem que tomei esta decisão pois após a

análise na anatomia patológica verificou-se existir já um pequeno foco

de carcinoma in-situ na mama esquerda. Que sorte!

Embora seja uma parte sexual do corpo feminino, não tive nunca a

preocupação de me tornar menos mulher porque essa parte do meu corpo

ia ser mutilada. Eu só pensei em tratar. O que mais me preocupa e

preocupou é ver a minha condição de vida afectada: os planos que se

fazem e somos obrigadas a desfazer, as dores, as noites mal dormidas,

a constante inquietação.

 

A maior dificuldade que tive foi os tratamentos de quimioterapia.

Talvez porque estivesse animicamente mais cansada, talvez porque no

fundo tivesse esperança de não ter que os fazer, talvez por me ver

mais uns meses envolvida com a doença, reagi com maior negatividade.

Dos 6 (preventivos) acabei por apenas realizar 4 pois as minhas veias

queimaram e foi com muita dificuldade que realizei o 3º e o 4º. Depois

considerámos a hipótese de não os fazer todos e viu-se que não seria

muito arriscado.

 

Procurei sempre encontrar formas de divertimento e evasão, que me

mantivessem o mais possível abstraída e agarrada à vida: jantei com

amigos, fui a festas, vi filmes e séries, ouvi muita música, li muito,

passeei. Viver, viver, viver! Obrigava o corpo a responder aos enjoos

que foram até bastante suportáveis. O maior problema foram mesmo as

veias.

 

Com a perda do cabelo lidei sem problemas e tentei sempre sentir-me

bonita com os meus lenços e chapéus. Aliás, todas as questões de

estética se revelaram para mim secundárias e com as quais lidei em

perfeitas condições.

 

No fundo, procurei encarar com naturalidade e aceitar com normalidade

o que me estava a acontecer. Para isso em muito contribuíram as

pesquisas que fui realizando e as dúvidas que fui tirando com amigos

que me poderiam dar algumas explicações acerca do funcionamento do

corpo humano. E tentei ver sempre o lado positivo da doença sempre com

a missão de tratar dela. Nunca me atormentou a ideia de morte, nunca

pensei que estava mais perto de morrer do que estaria antes. Pelo

contrário, de certa forma até me senti mais "protegida" por considerar

que "está-me a acontecer isto, já não me vai acontecer nada pior".

 

Agora o cabelo veio em força cheio de caracóis, tomo tamoxifeno

durante 5 anos e zoladex durante pelo menos dois. Aguardo cirurgia de

reconstrução da mama. E não sendo religiosa rezo para que à minha irmã

(24 anos) não lhe aconteça o mesmo, embora já haja suspeições no ar.

 

Enquanto isso saboreemos a vida. Tal como ela é.

 

Alexandra Silva, 29anos

Profissão: historiadora